quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Estudo Dirigido
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Estudo
Dirigido – Modernismo 1
Modernismo Primeira fase
1-
Aponte o marco inicial do Modernismo brasileiro
e o projeto estético dos artistas modernistas.
2-
Os artistas modernistas brasileiros
assimilaram o discurso das vanguardas europeias baseados em qual pressuposto?
3-
Explicite o projeto estético e ideológico do
Modernismo brasileiro.
4-
Cite as principais facções do Modernismo que
surgiram logo após a Semana de 22.
5-
Explique por que o Movimento Pau-Brasil
e a Antropofagia se destacaram das
demais facções modernistas.
6-
Explicite a expressão “comer o outro”
largamente utilizada no movimento antropofágico.
7-
Aponte o nome dos autores das obras “Macunaíma” e “Cobra Norato” .
8-
Discorra sobre a importância das obras citadas
acima para o movimento antropofágico.
9-
Explique de que maneira Mário de Andrade
aponta o personagem Macunaíma como um espelho da identidade nacional.
10- Relacione
o Tropicalismo do século XX aos movimentos Pau-Brasil e Antropofágico.
Conto de Guimarães Rosa
Famigerado
Guimarães Rosa
Foi de incerta feita
— o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa,
o arraial sendo de todo tranquilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.
Um grupo de
cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e,
embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me
nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o
que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em
guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem
arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.
Nenhum se apeava. Os outros, tristes
três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa,
tropa desbaratada,
sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de
regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora
se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da
rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de
resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam
menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos
assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo
enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não
seus sequazes.
Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço
até na escuma do bofe.
Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha
arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me
dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O
medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.
Disse de não,
conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar
na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei:
respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se
espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez
são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado,
estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de
macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
"Eu vim
preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."
Carregara a celha. Causava outra
inquietude, sua farrusca,
a catadura de
canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo;
maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por
esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu
sempre na cabeça. Um alarve.
Mais os ínvios
olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se
sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao
nível justo, ademão,
tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela,
de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo
menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas
duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para
cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém,
banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se
inquietar, sem medida e sem certeza.
— "Vosmecê é que
não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."
Sobressalto. Damázio,
quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas
mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos
ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera?
Ali, antenasal, de
mim a palmo!
Continuava:
— "Saiba vosmecê
que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que
estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em
saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."
Com arranco,
calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí
estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu.
Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não
me encarava, só se fito à
meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava:
de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos,
insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha
de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios.
Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:
— "Vosmecê agora
me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado...
faz-megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
Disse, de golpe,
trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se
seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada.
Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto
vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de
atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para
exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?
— "Saiba vosmecê
que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso
direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."
Se sério, se era. Transiu-se-me.
— "Lá, e por
estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro
que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de
menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me
dou: eles logo engambelam...
A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado:
o que é que é, o que já lhe perguntei?"
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
— Famigerado?
— "Sim
senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da
raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo —
apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me
carecia noutro ínterim, em indúcias.
Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então,
mumumudos. Mas, Damázio:
— "Vosmecê
declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra
testemunho..."
Só tinha de
desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
— Famigerado é
inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...
—
"Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é
desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões
neutras, de outros usos...
—
"Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em
dia-de-semana?"
— Famigerado?
Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...
—
"Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"
Se
certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
—
Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas
era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
—
"Ah, bem!..." — soltou, exultante.
Saltando
na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se,
outro. Satisfez aqueles três:
—
"Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." —
e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um
copo d'água. Disse:
—
"Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que
de novo, por um mero, se torvava?
Disse:
—
"Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora,
sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse:
—
"A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra
azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez,
aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não
pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.
Texto extraído do
livro "Primeiras
Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 13.
Conto de Machado de Assis
Conto de Escola, Machado de Assis
A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de
grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia — uma segunda-feira, do mês de
maio — deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria
brincar a manhã.
Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de
Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um
espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros
soltos.
Morro ou campo? Tal era o problema. De repente
disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a
razão. Na semana anterior tinha feito dous suetos, e, descoberto o caso, recebi
o
pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova
de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho
empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma
grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis,
ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de
capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último
castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de
virtudes.
Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do
mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois.
Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de
brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído.
Chamava-se
Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais.
Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los
na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram
de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem;
começaram os trabalhos.
— Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me
baixinho o filho do mestre.
Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole,
aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a
outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não
podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma
criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola
depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.
— O que é que você quer?
— Logo, respondeu ele com voz trêmula.
Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu
era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais
inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no
estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que
não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de
escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a
recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem
espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão
depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou
seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a
dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses
nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente,
dava-lhes essas expressões.
Os outros foram acabando; não tive remédio senão
acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.
Com franqueza, estava arrependido de ter vindo.
Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o
morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos
das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de
desespero, vi
através das vidraças da escola, no claro azul do
céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso
de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na escola, entado,
pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.
— Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
— Não diga isso, murmurou ele.
Olhei para ele; estava mais pálido. Então
lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma cousa, e perguntei-lhe o que
era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco;
era uma coisa particular.
— Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.
— Que é?
— Você...
— Você quê?
Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns
outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o
Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera.
Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que
parecia atento; podia
ser uma simples curiosidade vaga, natural
indiscrição; mas podia ser também alguma cousa entre eles. Esse Curvelo era um
pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós. Que me quereria
o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com
instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou
então, de tarde...
— De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser
de tarde.
— Então agora...
— Papai está olhando.
Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais
severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais
aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos
a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia
devagar, mastigando as idéias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no
fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto
algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter,
para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da
janela, à direita, com os seus cinco olhos do
diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do
costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas
dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao
menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de
quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a
valer.
No fim de algum tempo — dez ou doze minutos — Raimundo
meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.
— Sabe o que tenho aqui?
— Não.
— Uma pratinha que mamãe me deu.
— Hoje?
— Não, no outro dia, quando fiz anos...
— Pratinha de verdade?
— De verdade.
Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era
uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dous tostões, não me
lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração.
Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para
mim.
Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que
não.
— Mas então você fica sem ela?
— Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que
vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?
Minha resposta foi estender-lhe a mão
disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão
dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um
negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um
ponto da lição de
sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e
estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos
joelhos...
Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse
da virtude uma ideia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil
em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre.
A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra
franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa
da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.
Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e
que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil
para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a cousa por favor,
alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança
das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não
aprender como queria, — e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse
ensinado mal, — parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava
com o favor, — mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que
a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio
esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era
bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso,
quando trazia alguma cousa, um cobre feio, grosso, azinhavrado...
Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei
para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé
do nariz.
— Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a
pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o
mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado
aos jornais, lendo com fogo, com indignação...
— Tome, tome...
Relancei os olhos pela sala, e dei com os do
Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos
observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e —
tanto se ilude a vontade! — não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.
— Dê cá...
Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu
meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá
estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a
lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente;
passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e
cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior
para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria
bem.
De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha
os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco,
voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar,
acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele
não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador.
O coração bateu-me muito.
— Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
— Diga-me isto só, murmurou ele.
Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a
moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era,
disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda
mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que
também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio
andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os
jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros,
com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro,
o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir
ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a
pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem;
guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me
não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo
tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.
— Oh! Seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.
Estremeci como se acordasse de um sonho, e
levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada,
jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar
tudo.
— Venha cá! bradou o mestre.
Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela
consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a
escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu,
conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor
de todos.
— Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as
lições aos outros? disse-me o Policarpo.
— Eu...
— Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu!
clamou.
Não obedeci logo, mas não pude negar nada.
Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu
não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha.
Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a
à rua.
E então disse-nos uma porção de cousas duras, que
tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma
vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados.
Aqui pegou da palmatória.
— Perdão, seu mestre... solucei eu.
— Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos!
Sem-vergonha! Dê cá a mão!
— Mas, seu mestre...
— Olhe que é pior!
Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui
recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram
as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma cousa; não
lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro
sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o
negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E
exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!
Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar
ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando,
fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer
que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo
enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a
cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dous serem cinco.
Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava
para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler
em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa,
coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que
denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma cousa?
" Tu me pagas! tão duro como osso!" dizia
eu comigo.
Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante,
apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio;
havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o
não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa
botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me
deu notícia. De tarde faltou à escola. Em casa não contei nada, é claro; mas
para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha
sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dous meninos, tanto o
da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à
escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem
escrúpulos...
De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a
moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol
magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por
sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse
trepar ao trono
de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém
chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que
amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...
Na rua encontrei uma companhia do batalhão de
fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados
vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham,
passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto
de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor...
Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também
ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa:
Rato na casaca...
Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois
enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as
calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo
a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro
conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...
FIM
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