Eu estava na casa de minha avó,
conversando. Ela me contou tudo sobre o meu falecido avô e sua história de
amor, mas algo sobre sua história de vida me chamou atenção.
— Como assim? – perguntei – estamos em
2016 e agora a senhora resolve me contar que não nasceu em BH?
— Não faria diferença!
— É claro que faria! – respondi, indignada –
como era esse lugar de onde a senhora veio, na sua época de criança? Tinha
muitas árvores?
— Esse lugar se chama Paraopeba e localiza-se
aqui mesmo, em Minas. Não posso lhe afirmar que tinha muitas árvores, mas tinha
mais que hoje em dia.
Eu fiz cara de pensativa. O lugar
parecia muito bom. Por que será que se mudou para cá? Eu perguntei isso a ela,
que respondeu:
— Eu e minha família precisávamos estudar para
ter um futuro melhor.
— Entendi... Mas a senhora não resolveu mudar
para cá de repente, e escolhendo uma cidade aleatória. Você conhecia alguém
daqui em Belo Horizonte?
— Sim, mas ninguém muito próximo. Apenas uma tia
distante.
Tinha uma pergunta presa em minha
garganta. Eu sou criança, mas nem tanto. Sabia que a situação financeira era
complicada. Eu só estava com vergonha de perguntar.
— É...
Vó... – falei um pouco desconcertada – você tinha muitos irmãos, certo?
— Sim.
— Então o custo de vida devia ser alto, não é?
Ela fez cara de desentendida, mas
depois de pensar um pouco, caiu na gargalhada. Meu Deus do céu, por que eu não
sou um avestruz para enfiar minha cabeça em um buraco.
— Relaxe minha neta – ela respondeu, com
tranquilidade – nós vivíamos com dificuldade, mas não a ponto de morrer de
fome.
— Ainda bem, né?
— Foi Deus que me manteve viva.
Ah não, lá vem aquele papo religioso.
— Próxima pergunta – falei para mudar de assunto
– a cidade era movimentada e violenta, como hoje?
— Graças a Deus, não – ela respondeu radiante,
como se estivesse lembrando de sua infância – era um lugar tranquilo, com poucos
assaltos. Eu e meus amigos até conseguíamos brincar nas ruas por causa da falta
de carros.
— Nossa!... – falei desapontada – você fala tão
bem desse lugar. Você voltaria para lá e me abandonaria?
— Claro que não! – ela me abraçou – já me
considero uma belo-horizontina e toda a minha família e meus amigos vivem aqui.
— Tudo bem, Belo Horizonte é uma cidade muito
legal, mas tudo tem pelos menos um defeito. O que a cidade tem que a senhora
não gosta?
Pareceu que ela nunca tinha escutado
essa pergunta antes. Ficou um pouco em dúvida.
— Essa é uma pergunta difícil – respondeu –
gosto de pensar no lado bom de tudo.
— Faça um esforço!
— Tudo bem. Eu não gosto de ver moradores de rua
sofrendo, de ver a falta de educação do povo nem de ver os meios de transporte,
que são desconfortáveis.
Concordei com ela. Não gosto disso
também.
— Essa cidadezinha – Paraopeba? – parece ser bem
legal! – comentei animada.
— Ela era sim. Mais alguma pergunta?
— Não, era só isso mesmo. Muito obrigada!
— Até semana que vem.
— Até!
Flávia
Que fofo!!!
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